30/01/2016

“Mapping our Tiles” – A Georreferenciação de Azulejos


É de longe um dos projectos mais interessantes que tivemos o prazer em acompanhar e promover. “Mapping our Tiles” é uma iniciativa de três engenheiras motivada pela valorização «e partilha da beleza dos azulejos das casas do Porto e de Portugal», caracterizando-se pela georreferenciação dos mesmos que liga diversos padrões às localizações físicas onde existem.

O site da iniciativa foi lançado em Novembro de 2015 e trata-se, evidentemente, de um projecto a longo prazo. A ideia conta com a colaboração de todos, tendo como ponto de partida que cada cidadão fotografe um determinado padrão de azulejos e tome nota da sua localização. Poderá enviar esse registo por email (mappingourtiles@bonjardim.pt) ou através da rede social Instagram (#mappingourtiles); posteriormente será feita a sua validação e a sua inscrição no mapa de Portugal que existe na internet.

É evidente que adoramos a iniciativa, uma vez que se tratar da valorização de um património que merece ser substancialmente promovido, pelo que
convidamos o maior número de cidadãos do Porto a colaborar. Fique a saber mais em:



Fonte:




29/01/2016

Hotéis a Mais no Porto?


O que à partida é óptimo para a economia da cidade (e sempre o reconhecemos) não está isento de riscos. Enquanto surgem cada vez mais hostels, pousadas e hotéis no Porto e os números do turismo crescem de ano para ano poucos parecem considerar o que se espera do outro lado da balança: a prudência questionará se não se está a gerar uma bolha e se a presença em demasia de hotéis não descaracterizará o Centro Histórico ou poderá ainda pôr em causa a sua classificação como Património da Humanidade.

Esta opinião, ou reflexão, avançada pela actual Secretária de Estado da Cultura cruza-se com outros problemas já diagnosticados e que as notícias foram dando conta mediante a “pressa” para transformar um centro histórico num espaço cosmopolita, mas despojado ou pouco conciliador com os seus habitantes originais. Este fenómeno começou com a reconstrução (não confundir com reabilitação) dos prédios no Largo dos Loios legitimamente censurada pelo ICOMOS em 2012. Vão-se suceder posteriormente as queixas de moradores da Zona da Movida relativamente à falta de legislação ou regulamentação dos bares e da noite que os perturbam durante os anos seguintes. E acresce-se a isso a pressão sentida pelos moradores e lojistas originais (Sé/Vitória/S. Nicolau) por parte dos proprietários para abandonarem as facções que ocupam para novos empreendimentos turísticos (sobretudo hostels), algo que já foi avançado numa notícia em Novembro de 2015. E agora surgem mais pedidos de licenciamento de hotéis na ordem das dezenas – e sobretudo na Ribeira!

É certo que já identificamos muitos palacetes e casas ou propriedades devolutas que davam para ser transformados em excelentes em pousadas ou hotéis, mas sobretudo fora do centro histórico classificado (antiga Fábrica de Cerâmica de Massarelos, as ruínas do Convento de Monchique, a Quinta dos Salgueiros nas Antas, etc.), mas tudo necessitará do seu equilíbrio. E se os próprios cidadãos do Porto, os seus costumes, as suas tradições, o seu “bairrismo” e a sua relação com a cidade também são parte do seu rico património, convém que estes não sejam esquecidos ou continuadamente renegados para segundo ou terceiro plano.

Para variar, é errado permitir que o “Efeito Donut” continue a acentuar-se no Porto (motivado até por vários motivos, mas este é mais um) e que a cidade continue a perder os seus cidadãos mais legítimos para as suas periferias. Habituamo-nos demasiado, enquanto sociedade, a pensar no presente; mas no futuro teremos de lidar com as possíveis consequências.

Fonte:

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/cultura/hoteis-no-porto-podem-por-em-causa-patrimonio-da-humanidade

https://www.publico.pt/local/noticia/secretaria-de-estado-alertou-para-o-numero-de-hoteis-no-porto-e-apoiou-candidatura-das-caves-de-gaia-a-patrimonio-mundial-1721711

http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=4886842

Vale a Pena Comemorar o que Foi Destruído?



Em cima: Fotografia da Avenida dos Aliados nos Anos 60 do séc. XX. Nota-se a alternância de vegetação com a Calçada à Portuguesa.

Pode parecer um assunto digno de controvérsia, de debate ou até polémico, mas quando se está do lado de quem protege a integridade do Património e da valorização de espaços históricos, não se pode olhar para a actual Avenida dos Aliados e compará-la com a antiga sem se referir à mesma senão como um processo de destruição.

José Marques da Silva e Barry Parker idealizaram juntos uma das avenidas mais elegantes da Europa que se destacava não só por incluir edifícios emblemáticos que transmitiam o melhor do Eclectismo e das Beaux-Arts, como tiveram ainda a visão de valorizar o seu conjunto de praças revestidas com a típica Calçada à Portuguesa (que já está em extinção no Porto e foi retirada de todas as praças históricas). Não tiveram problemas em adicionar-lhes elementos verdes e bancos de jardim que convidavam as pessoas a passear e desfrutar do local.

Infelizmente, o que aconteceu durante uma época em que existia mais dinheiro para alterar praças do que para reabilitar edifícios classificados (e emblemáticos) devolutos, a Avenida dos Aliados sofreu um atentado de quem pouco sabe valorizar o que há de mais notável e exclusivo numa cidade. As justificações foram várias – mas podemos contra-argumentá-las (e eventualmente iremos fazê-lo mais tarde) – mas não convenceu todos. Na verdade, não convence historiadores, não convence artistas, não convence visitantes ou turistas que se lembram de como era a anterior avenida, não convence os que realmente apreciam grandes nomes da arquitectura portuense como José Marques da Silva, não convence arquitectos paisagistas ou urbanistas que dão maior importância à aprazibilidade e mais-valia ambiental do espaço, não convence metade (ou até mais) dos cidadãos do Porto.



Podemos apontar o erro a vários responsáveis, mas não vamos só citar o que é óbvio. As Praças Históricas já notabilizadas deveriam ser classificadas e protegidas! E a velha Calçada Portuguesa – que até pode ser reinventada – também deveria ser mais valorizada. O que vemos hoje na Avenida dos Aliados é uma paisagem estéril, pobre e incoerente com a sua própria história que uns teimarão em defender apenas porque se trata de um projecto de Siza Vieira e Souto Moura (esquecendo-se que os próprios arquitectos manifestaram o seu descontentamento quando a própria Câmara desconsiderou a colocação de mais árvores nas praças como intencionavam, nomeadamente carvalhos e bordos); mas se tivesse sido obra de alguém menos conhecido, maior teria sido o protesto e apontavam o que seria evidente.

É por isso que, tomando conhecimento de que a Fundação Marques da Silva e a Câmara Municipal do Porto assinalam no dia 1 de Fevereiro, pelas 19 horas, o centenário do lançamento da obra da Avenida dos Aliados somos levados a questionar: Vale a pena comemorar o que já foi destruído?

28/01/2016

Quinta e Palacete da Ponte da Pedra


Perto da antiga estrada romana que ligava a cidade do Porto (Cale) a Braga (Bracara Augusta) situa-se uma propriedade de campo secular que se estende até à margem do rio Leça, que é atravessado justamente pela velha ponte de pedra medieval de fundação romana mais conhecida por Ponte da Pedra, que daria o nome à quinta.

Mesmo que se presuma que a propriedade de campo possa ser muito mais antiga – tal como são muitas quintas existentes nos arredores do Porto – o palacete que a caracteriza data do século XVIII e foi conhecido durante décadas pelos habitantes de Leça de Balio por Palacete Oitocentista. É certo que mereceu maior atenção durante o século XIX, pois foi ampliado e funcionou como residencial durante essa altura e tornou-se o local predilecto de Camilo Castelo Branco para passar férias no Porto, uma vez que dispunha de praia fluvial e aprazíveis jardins ideais para o repouso ou para a inspiração de um escritor tão dedicado (não é difícil imaginar que possam ter sido intervencionados pela arte decorativa de Nicolau Nasoni no século anterior).



Também se consta que neste palacete se chegou a instalar o rei D. Miguel durante a guerra que travou com o seu irmão D. Pedro IV. Mais tarde, no início do século XX, a proprietária da Quinta da Ponte da Pedra doou-a ao Estado Português por não possuir herdeiros e o local veio a servir de albergue das pessoas idosas. Essa condição de albergue continuou até à revolução de 25 de Abril de 1974, quando os idosos foram recolhidos no Lar do Monte dos Burgos e o palacete ficou disponível para acomodar famílias retornadas das ex-colónias.

Infelizmente, os maus tratos verificados no palacete da Quinta da Ponte da Pedra já se sucedem desde a altura em que foram acomodadas as famílias de retornados, que não pouparam nem os seus jardins ao completo vandalismo que se estendeu até 2001, ano em que foi retirada a última família. Para piorar a situação do monumento, deflagrou um incêndio em 2005 que devastou grande parte do palacete.



Ainda hoje, apesar do conjunto de intenções da Câmara Municipal de Matosinhos para proteger a propriedade e reabilitá-la, o palacete e os edifícios adjacentes da quinta continuam devolutos, ensombrado uma área repleta de história e vital para a arqueologia e para o desenvolvimento cultural de Leça de Balio, que é o rio Leça e as áreas de proximidade do seu notável mosteiro, que se situa nas imediações.

Fábrica Têxtil Vaz Teixeira


Situa-se em S. Mamede Infesta, Matosinhos, mais uma relíquia dos tempos em que Portugal ainda dispunha de um maior desenvolvimento industrial e que o sector secundário era responsável pela criação e manutenção de milhares de empregos no concelho. Trata-se da antiga Fábrica Têxtil Vaz Teixeira.

O que poderia ser um “bom” monumento (parte do património, digamos assim) é actualmente um monte de ruínas – similar a tantas outras velhas e grandiosas fábricas têxteis que vieram a definhar até se extinguir.



Encontra-se no mesmo estado há cerca de dez anos, a marcar com um peso lúgubre a paisagem. Aliás, o pior golpe que terá sofrido foi desencadeado por um grande incêndio em meados de 2006 (poucos anos após fechar) que lançou o pânico na vizinhança. Devido a esse golpe que devastou a fábrica, encontra-se entaipada com paredes de tijolos, constituindo uma configuração insólita que combina o tijolo e o cinzento betão numa amálgama ainda exposta ao vandalismo. Mais uma lembrança amarga da decadência que atentou contra as manifestações de progresso de décadas anteriores…

Aldrabas do Século XIX

Alguns dos elementos mais característicos das típicas casas burguesas do Porto são as suas aldrabas de ferro, sendo as mais notáveis datadas da segunda metade do século XIX mas também do início do século XX. O Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto tem algumas – talvez demasiado poucas – em sua posse e, enquanto não se valoriza mais ou existe uma norma de protecção sobre este elemento, prevê-se que os melhores exemplos que já identificamos venham a desaparecer.

Uma das aldrabas mais conhecidas e até generalizadas são em forma de mão, que já foi designada erradamente de “Mão de Fátima”, pois tudo indica que sejam de influência francesa e provenientes do Romantismo, se bem que careçam de um estudo mais profundo para equiparar a outros exemplares espalhados pela Europa (e não só).
Por outro lado, temos as aldrabas em forma de rosto e, embora sejam mais raras e as que restam estejam em risco de se perderem, em relação às mesmas já temos menos dúvidas quanto à sua proveniência. São certamente influenciadas pelo Romantismo e apresentam detalhes revivalistas, tanto mais que várias, compostas de folhagens, são de inspiração gótica e em tudo se assemelham aos “Green-man” ou Máscaras de Folhagem que surgem em capitéis, frisos e mísulas das catedrais e igrejas medievais e até manuelinas (tardo-góticas). Uma vez que identificamos escassos exemplos de rostos com klaft (espécie de turbante ou toucado) egípcio, comprovam a teoria de que sejam mesmo inspirados pelo revivalismo próprio do período romântico.

Contudo, a maioria dos exemplares que encontramos, principalmente das peças de maior elaboração, encontram-se oxidados e a necessitar de um urgente restauro – o que prevemos que, infelizmente, não venha a acontecer. 

27/01/2016

Casa do Engenheiro Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco


No cruzamento da Rua de Diu e da Rua do Teatro, na Foz do Douro, quase passa despercebido um imóvel que vários definem como «prédio» ou «antigo teatro», pois afinal de contas terá existido um teatro na rua homónima e é natural, dadas às características únicas deste edifício, que se confundam com algo de mais notável que uma moradia. Mas trata-se realmente de uma moradia! E o antigo teatro que existiu na área situava-se junto a esta casa (muito provavelmente onde hoje se situa um prédio moderno da autoria do arquitecto Eduardo Souto Moura).


Apesar do conjunto de intenções e das várias intervenções que esta moradia tem tido no sentido de melhor preservá-la, principalmente a nível exterior, necessitará de obras mais profundas de reabilitação para estar pronta a ser habitada. Mas o pior tem sido no que toca à preservação dos painéis de azulejos – trata-se de um pequeno conjunto que se situa entre os melhores exemplares de cerâmica Arte Nova que se podem encontrar na área metropolitana do Porto e que nós atribuímos à Fábrica de Cerâmica das Devesas. Infelizmente, cerca de um terço dos azulejos já desapareceram e quase outro terço dos restantes apresentam danos que muito nos desagradam.

Além do seu valor a nível decorativo, a arquitectura da casa é elegante e denota um traço único pelas mãos do seu autor que, aliás, julgamos ser o seu primeiro proprietário: o engenheiro Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco (n. 1875), profissional a que temos de dar importância devido aos seus projectos a nível do alojamento operário e da Habitação Social, tendo seguido e acompanhado de perto as linhas programáticas do arquitecto José Marques da Silva (ver Nota no final). O proprietário, com apreço pelo detalhe e rigor, contou com o mestre-de-obras Licínio Teixeira Cardoso para construir esta moradia em 1910 mas, pouco satisfeito com o primeiro projecto, manda alterá-lo em 1912 consoante o seu próprio gosto. Só muito mais tarde, em 1923, nas traseiras do edifício, manda acrescentar uma garagem e é possível que várias alterações na casa decorram em linha com esta adição a partir dessa data, pois nesta secção já se reconhece uma influência Art Deco.


É precisamente nas traseiras desta casa, viradas para a Rua do Teatro que os danos e os sinais de abandono são mais visíveis. Lamentamos que assim seja - esta moradia é mais um pedaço de património da Foz do Douro que necessita de ser reconhecido... e bem protegido.


NOTA: Joaquim Gaudêncio Rodrigues Pacheco tornou-se engenheiro-chefe da 3ª Repartição da Câmara Municipal do Porto em 1909. Embora o seu papel como autor de importantes projectos na cidade ainda carecem de estudos mais profundos, alimentou-se a especulação entre vários investigadores de que poderia ser o verdadeiro autor (ou que tivesse de alguma forma contribuído) do antigo Matadouro Industrial de Campanhã e até da Escola Infantil do Passeio Alegre na Foz (inaugurada em 1916) inspirado pelas linhas de Marques da Silva, mas adicionando elementos mais “classicistas”, se bem que não tenhamos como o comprovar. Tal como o mais notável arquitecto da cidade do Porto, foi um pioneiro na área da Habitação Social: projectou o Bairro do Bonfim no Monte das Antas (inaugurado em 1904) e foi responsável pela Colónia Viterbo Campos na Arrábida (1916/17).

Farol da Senhora da Luz


Ficamos animados com a intenção de se reabilitar o antigo Farol de São Miguel-O-Anjo (séc. XVI) para continuar a lamentar a depreciação pelo velho Farol da Senhora da Luz da segunda metade do século XVIII.

Compreende-se o facto de estar vedado, uma vez que o local onde se situa ainda pertence à Marinha, colocando este farol na imediata categoria de Património do Estado, estando interdita a aproximação de turistas e curiosos ao espaço. O que não se compreende é não ser motivo de maior estima, pois os sinais de degradação e parca manutenção já são visíveis (esperemos que não piorem).

A história deste farol já é conhecida: Foi erguido segundo o alvará do Marquês de Pombal a 1 de Fevereiro de 1758 no alto do Monte da Luz onde existia já uma capela do século XVII consagrada a Nossa Senhora da Luz. Neste ponto com uma vista privilegiada, do qual é possível visualizar a foz do Douro e uma extensão do território litoral até Espinho, já há muito que se exigia a construção de um farol. O que também não deixa de ser interessante é a descoberta de gravuras rupestres entre os rochedos deste monte, o que indica a presença humana no local desde há tempos imemoriais. 

26/01/2016

Antiga Fábrica de Molduras “Santos & Irmãos”

Actualmente a Santos & Irmãos é conhecida como a mais antiga fábrica de molduras e douramentos ainda em actividade da cidade do Porto e até de Portugal. Afinal de contas, a data da sua fundação remonta ao ano de 1858.

Todavia, muitos ainda se enganam ao julgar que a Casa Nº470 da Rua do Bonjardim, visível no cruzamento com a Rua de Fernandes Tomás e com a característica montra corresponde ao exacto local onde os ditos irmãos começaram o seu negócio – já se haviam instalado na mesma rua muito antes, mais acima (tendo fundado uma primeira casa de abertura ao público na Travessa das Liceiras). É verdade que esta casa é bastante antiga e ainda não é certo se foi erguida no século XIX ou se data do século anterior, embora seja justo reafirmar que foi substancialmente alterada com o passar dos anos, principalmente no início do século XX, quando a firma decidiu usar a pequena casa para servir de oficina.

Não foram ainda descobertos documentos a comprovar que a Santos & Irmão (era então assim que era designada) se tenham instalado no Nº470 antes dos anos 20 do século XX, tendo intervencionado bastante na casa sobretudo no ano de 1922: Repararam escadas, soalhos e estuques e ainda retiraram todas as divisões da casa, tornando-a mais adequada a servir de oficina. O que é certo é que desde essa época em diante, com o passar das décadas, não deixou de ser uma das casas mais icónicas da Rua do Bonjardim e bem reconhecida pelo mérito do seu trabalho.

A pequena fábrica ainda é icónica, devido ao seu valor histórico – ou assim ainda a consideram alguns; no entanto, tamanho é o estado de desprezo a que chegou, na qual temos de acusar aqui uma situação de semiabandono, tendo-se transformado em mais um imóvel com os rudes sinais de degradação que não poupam sequer os painéis de azulejos que revestem desde há muito a sua fachada.


Nota 1: a Firma Santos & Irmão alega que se trata da mais antiga casa de molduras ainda em funcionamento do Mundo - mas trata-se de uma descrição que não podemos (ainda) comprovar nem sequer pôr em causa - sendo muito provável que seja verdade.

Nota 2: o blogue não pretende pôr em causa o bom nome ou o bom trabalho desta antiga firma cujo trabalho merece ser notabilizado e bem mais publicitado - o caso de uma casa em seu nome cujo estado nos indigna não merece ser confundido com a falta de esforços de uma firma que em todo caso procura sobreviver após décadas de desafios, elevada concorrência e anos de crise.

Nota 3: a perda da Firma Santos & Irmão será uma machadada tão elevada no que entendemos ser um bem patrimonial a proteger - um nome distinto e histórico entre as PME's ligadas à cidade - quanta a perda desta casa, pelo que a equipa Porto Sombrio só tem como único desejo ver as mesmas a manter intactos (ou a reastebelecer, no caso deste imóvel) o seu funcionamento e o seu mérito.

Fontanário de Ferro Fundido

Entre os elementos mais exclusivos da cidade do Porto encontram-se as velhas luminárias de ferro fundido da segunda metade do século XIX. Muitos ainda se encontram em diversos locais espalhados pela cidade e pela própria área metropolitana, nas urbanizações mais antigas. E não foram poucos os que já sofreram diversos restauros. Na zona da Foz do Douro, principalmente na Foz Velha e em várias ruas de Nevogilde é possivel identificar-se uns quantos, que dão um ambiente muito particular a uma área que inspira a determinados passeios pedrestes. 

É óbvio que estas luminárias já não funcionam a gás, e, conforme as diferentes alterações que foram sofrendo ao longo das décadas, também incorporaram vários tipos de lâmpadas, reconhecendo-se na actualidade o interesse em dotar estas luminárias com mais de um século de existência de lâmpadas novas, brancas, de "baixo consumo" - as robustas lâmpadas Tempore© de sódio de alta pressão, da Schreder®.

Mas entre estes elementos característicos, e bem mais exclusivos, também se destacam os velhos fontanários de ferro fundido da Foz com os quais se confundem devido à sua semelhança com os postes de iluminação mais altos e por terem sido forjados nas mesmas fábricas. Deixaram de ter a mesma função que teriam há décadas atrás, pois. Ainda assim, mantém-se alguns nos mesmos locais e apresentam fortes sinais de corrosão devido ao seu abandono. Os exemplares que localizamos são velhas relíquias da Fábrica de Fradelos e, no mínimo, deveriam ser protegidos ou mais estimados. Na verdade, se a ideia é que continuem desactivados, talvez o melhor mesmo fosse guardá-los no Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto, pois para todo o efeito são exemplares históricos interessantes de uma época superinteressante em termos de desenvolvimento industrial para a cidade.

É que através da degradação contínua e falta de estima por estes elementos somos levados a formular uma séria questão: Se um munícipio que tem como um dos principais objectivos zelar pelo seu património, como é que ignorando tantos detalhes pode ser responsável pela recuperação de maiores elementos? 

25/01/2016

Ruínas no Alto de Soutelo/Avenida da Carvalha


Desde há alguns anos que os habitantes do Alto de Soutelo, na freguesia de Fânzeres em Gondomar, lamentam o estado de declínio de uma casa em particular que sempre se destacou na Avenida da Carvalha – é comummente referida como a «antiga casa dos Capotes». Este nome chamou-nos a atenção, tanto mais que os descendentes desta família ainda são conhecidos por esta designação, tanto em Fânzeres como em Rio Tinto (já que o Alto de Soutelo ocupa a fronteira entre as duas freguesias e os “Capotes” foram donos de propriedades que ocupam esta área). Ainda hoje se debate entre os cidadãos se «Capote» é uma alcunha ou um nome próprio, embora a importância que este nome adquire para o nosso blogue diz respeito à história desta casa.

A importância da família para o local em questão corresponde precisamente ao “primeiro Capote”, comprovando-se, através de registos monográficos de Fânzeres, que se tratava da alcunha de José Martins Marques, que acabou por acompanhar os seus descendentes. José Martins Marques Capote era, por seu lado, herdeiro desta moradia que se presume ter sido erguida pelos seus pais algures entre os finais do século XIX e inícios do século XX, que já eram donos da fábrica ao lado, assinalada também por ruínas e um velho portão enferrujado, de acessórios para a indústria têxtil que já funcionava por volta de 1880. Mais tarde, em meados dos anos 30 do séc. XX, José Martins Marques instala na mesma avenida, em frente à sua casa, uma fábrica de produção de tecidos, expandindo o seu negócio, tornando-se uma das indústrias mais importantes do território.


Hoje em dia já não existe nenhuma fábrica ligada à indústria têxtil no alto da Avenida da Carvalha. A mais antiga, assinalada pelas ruínas, chegou a ocupar uma oficina automóvel durante os anos 80 que resistiu até aos primeiros anos do séc. XXI (e já nessa altura havia perdido todo o seu «brilho»). A fábrica em frente deixou de funcionar também e foi inteiramente demolida em 2004 para dar lugar a um prédio de habitação que dispõe de várias galerias comerciais. A bela moradia ainda resistiu… Ou foi resistindo, mediante o abandono (chegou-se a especular que seria motivo de litígio entre os herdeiros). Apesar do seu valor patrimonial, em termos históricos mas igualmente a nível de arquitectura e da azulejaria encontrava-se desclassificada (ainda se encontra!) e desprotegida, o que veio a facilitar o incêndio em Maio de 2013 que a destruiu e a transformasse no triste monumento que é hoje – um monumento em ruínas.


Mais recentemente, acompanhando o crescimento de mato incontrolado que agora envolve o que resta das ruínas, foram retirados (roubados?) os painéis de azulejos que eram visíveis no exterior da casa. Muito provavelmente são provenientes da antiga Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho (mas não tivemos como o comprovar). Nas áreas superiores os painéis eram bastante coloridos, de influência Arte Nova, com composições de flores. Na fachada principal, virada para a avenida, destacavam-se como elo de ligação entre as janelas da cave e do primeiro piso painéis de azulejos policromados, azuis, com a representação das margens do Douro e de barcos rabelos.

A Santa Casa vai Investir 10 Milhões de Euros na Reabilitação Urbana



Muitos ainda se irão surpreender quando for revelado que já se estimou que a Santa Casa da Misericórdia do Porto possuía quase um terço dos imóveis da cidade, muitos dos quais no seu Centro Histórico. É um património inestimável e muito do qual serve precisamente para habitação.

Este investimento é uma boa notícia. Ao pretender candidatar mais de 50 imóveis ao programa Reabilitar para Arrendar gerido pela IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) e com um investimento na ordem dos 10 milhões de euros, estamos a falar na devolução de 300 habitações ao Porto. E a SCMP não pretende ficar por aqui, uma vez que detém um acordo com o governo a identificar e a apoiar outras instituições de carácter solidário detentoras de património dentro da área metropolitana para promover uma extensão deste programa.

O primeiro prédio da Santa Casa a entrar obras para ser reabilitado será o Nº98 da Rua Chã, destinado a habitação e comércio. Se as restantes reabilitações de casas pertencentes à instituição prosseguirem a bom ritmo, parte da paisagem urbana do Porto poderá mudar em pouco tempo… para melhor.

Fonte:

22/01/2016

Duas Distintas Casas na Avenida Fernão de Magalhães


Para quem costuma passear pela cidade do Porto, seja de carro ou a pé, não é invulgar encontrar duas casas ou dois prédios, lado a lado, abandonados e devolutos (até há exemplos de quatro ou cinco). Chamamos a esse fenómeno «Contágio Duplo» que, pela força de vários motivos que merecem ser estudados, leva-nos muitas vezes a confundir dois prédios como um só, principalmente quando a sua arquitectura não é muito distinta ou interpretamos dois casos distintos como se tratasse de algo único.

Esta confusão é justificável em muitos casos – ainda mais se julgarmos que duas casas ou dois prédios contíguos, idênticos, pertenceram ao mesmo proprietário. Mas no que toca ao exemplo de duas habitações na Avenida Fernão de Magalhães (os números 1207 e 1212 – 1216) não deveria haver margem para este género de equívocos. Cada uma apresenta diferentes características, já que são de épocas diferentes, embora não sejam completamente dissonantes entre si. Antes se diria que existiu uma procura de coerência no mais novo imóvel, que corresponde aos números 1212 e 1216.

Não sabemos quem foi o primeiro proprietário ou o arquitecto responsável pelo Nº1207, que apresenta alguns gradeamentos interessantes. A referência mais antiga desta casa refere uma proprietária, Eufrásia da Costa Gonçalves Vasconcelos, mas já é dos anos 30 e percebemos que fez obras de manutenção numa casa com já várias décadas de existência, datando possivelmente da mesma altura de abertura da Avenida Fernão de Magalhães (mas continuaremos a investigar para ver se descobrimos mais).



Em relação à casa com os números 1212 – 1216 dispomos de mais informação, que em termos históricos, principalmente no que toca à História da Arquitectura do Porto, é relevante. Um dos seus proprietários foi o arquitecto Mário Augusto Ferreira de Abreu, a cuja autoria correspondem alguns dos prédios mais notáveis da primeira metade do século XX situados na freguesia do Bonfim (e não só). O outro proprietário da casa (pois possuiu duas habitações separadas, ao contrário do que seria de esperar) era João Soares de Bastos, enquanto o principal técnico da obra foi o engenheiro Joaquim Mendes Jorge. Foi construída no ano de 1935 e reconhece-se uma ténue influência Art Deco (ou mais um vestígio severo) que podemos identificar noutros prédios da cidade, como os muito similares Nºs 32 – 36 da Rua de Brás Cubas da autoria de Mário Augusto Abreu, o que nos leva a concluir que esta casa foi desenhada precisamente pelo seu proprietário arquitecto. 

A Ronda de Audiências com Partidos pela Habita


É uma iniciativa tão interessante quanto urgente, pois da mesma forma que Portugal começou há alguns anos atrás a dar os primeiros passos numa verdadeira política de Reabilitação Urbana ainda há um atraso civilizacional efectivo no Direito e Garantia à Habitação (conforme as normas do Artigo 65º da Constituição Portuguesa e vários artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ou na ausência da construção de um novo Paradigma de Habitação Social e/ou Comunitária.

O que é curioso no meio disto tudo é que temos de frisar várias inconsistências de funcionalidade que realmente dão razão a esta actuação por parte da Habita (Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade) que foram verificadas durante uma altura de crise em que a nossa sociedade insistiu quase impávida a uma inversão de valores por parte dos estados que tornaram os resgates aos bancos mais cruciais do que a garantia de uma dada protecção dos interesses sociais dos cidadãos (enquanto a Islândia foi praticamente a única excepção nesta actuação). Como solução para uma crise financeira alimentou-se uma crise económica e centenas de milhares de cidadãos perderam as suas fontes de rendimento e consequentemente as suas habitações e, mesmo assim, com a entrega das suas casas aos bancos não deixaram de ter as mesmas dívidas ou, no caso das dívidas às finanças, abateram mais (ou muito mais) do que o valor que deviam ao entregar os seus imóveis. Queixas e reclamações à parte por parte desta extorsão tolerada por governos não surgiram efeitos desejados senão a noção de que há mais habitações vazias do que pessoas ao longo de todo o território – e tudo parece ainda mais grave quando milhares são excluídos do direito à habitação social porque são desempregados recentes e muitos ainda dormem nas ruas das nossas cidades sem existir (amplas) iniciativas para contrariar esse problema que não passe unicamente por albergues que as afastam. 

Políticas à parte (mas não vamos ser ingénuos ao ponto de julgar que o problema não é sobretudo político) há algo de errado quando sentimos que vivemos num sistema disfuncional e contemplamos a dolorosa ironia de que se aposta na Reabilitação Urbana para repovoar os centros desertificados das nossas cidades e não há soluções para não excluir milhares de cidadãos do Direito à Habitação apenas por razões económicas que poderia ser garantido com este esforço que está antes a alimentar o erro de que deve ser tomado apenas em vista o lucro (maioritariamente privado!) – e através deste a rude ganância que gera toda uma especulação imobiliária que faz aumentar preços e garante, sem sombra de dúvidas, um amplo parque habitacional vazio. Como se explica, por exemplo, que governos tenham resgatado e auxiliado bancos privados que possuem milhares de residências vazias e não lhes tenham exigido garantias em troca ou a penhora dessas mesmas residências para assim contrariar as perdas de inúmeros cidadãos que até então cumpriram os seus compromissos e subitamente se vêem sem as fontes de rendimento que até então tomaram como garantido e são friamente despojados?

À partida deparamo-nos com uma equação que deveria ser fácil de realizar, mas o assunto antes se torna complexo porque ATÉ AGORA nunca (ou quase nunca) existiram projectos de reconciliação da Reabilitação Urbana ou de Reocupação de Imóveis Vazios que o Estado deveria penhorar a quem simplesmente as arrecadou atropelando direitos básicos dos cidadãos para dar uma segunda oportunidade às verdadeiras vítimas da crise (falamos das pessoas e não dos bancos, ao contrário do que muitos ainda pensam), mas podemos assumir que o assunto abrange uma série de medidas que só poderiam ser tomadas após uma discussão mais alargada deste problema que tem sido debatido desde há muito por filósofos, sociólogos, antropólogos, economistas e activistas mas para o qual não há efectivamente uma grande vontade para resolver por parte das autoridades responsáveis ou uma resposta fácil ou resumida (mas desde quando qualquer decisão importante na vida deve ser tomada mediante respostas fáceis? Se as desejamos e as levamos a cabo sem a devida experiência cometemos erros; mas se nas respostas mais simples encontrarmos realmente a solução adequada somos filósofos!).

Sem nos estendermos e pôr de parte, por agora, a apresentação de uma dada série de estudos levados a cabo por quem se interessa pelos problemas da Habitação, ou melhor, do Direito à Habitação, para contrariar o esvaziamento dos centros das cidades históricas como o Porto que geram abandonos, degradações e todo aquele processo que resumimos num etc, etc, etc até alguém reclamar que casas ou prédios históricos devolutos e a desertificação são uma vergonha, descrevemos o conjunto de intenções da Habita:

1)      Não haver despejos sem que se assegure um tecto digno;

2)      Que a primeira habitação própria e permanente não possa ser penhorada;

3)      Aumentar urgentemente, e em número suficiente, a oferta pública de habitação com rendas adequadas ao rendimento das pessoas;

4)      Implementar uma efectiva regulação do mercado de habitação, combatendo a especulação imobiliária;

5)      Valorizar a Reabilitação Urbana na sua diversidade, garantindo a manutenção da função residencial e a protecção social;

6)      Desenvolver um plano urgente para pessoas sem casa;

7)      Democratizar verdadeiramente a vida nas cidades para que todos os seus habitantes tenham direito ao seu usufruto, acesso transparente à informação e direito à participação efectiva na regulação e tomadas de decisão sobre todas as dimensões urbanas fundamentais para a sua vida, entre estas a habitação, o espaço público, os equipamentos e os transportes.


Um valioso conjunto de intenções, ou exigências, bastante simples mas que realmente não terão (pelos mais diversos motivos) respostas fáceis – o que não impede de as subescrevermos. 

Fonte:

http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/sociedade/detalhe/associacao_habita_apela_a_suspensao_dos_despejos.html

21/01/2016

A Casa Manoel de Oliveira Já Não Vai Permanecer Abandonada

Há quem a descreva como «Mamarracho» ou «Elefante Branco», tendo passado por um fenómeno similar ao Edifício (Pouco) Transparente em frente ao Parque da Cidade, junto ao litoral, cujo propósito foi debatido durante anos, apesar da despesa gerada e do estrago paisagístico. Felizmente, anos depois, a Câmara Municipal do Porto terá encontrado uma solução que passava pela sua transformação em galeria comercial, arrendando várias parcelas do seu espaço a bares e lojas, mas o mesmo não se poderá dizer da Casa Manoel de Oliveira, cuja função já estava atribuída mas que nunca terá servido o seu propósito.

A ideia desta casa data de 1998 para reunir o espólio do realizador e a sua construção, da autoria do arquitecto Souto Moura, seria concluída em 2003. Mas a partir dessa data a casa permaneceu abandonada. Era o mais novo monumento abandonado da cidade do Porto (e era certo que muitos outros abandonados poderiam ter sido reabilitados para servir o mesmo propósito, mas cada caso é um caso), e o principal motivo deveu-se essencialmente a nunca ter sido formalizado um acordo adequado com a Câmara para uso da casa e uma conduta imprópria do poder local que sempre pareceu mais própria de quem banaliza a cultura e desvaloriza personalidades ilustres da cidade, o que infelizmente resultou naquilo que mais se temia ao longo dos anos – que a Casa Manoel de Oliveira jamais funcionaria como tal ou que acolheria o espólio do cineasta, que acabou por falecer em Abril de 2015.

Seria de esperar que após uma primeira tentativa da Câmara Municipal do Porto para tentar vender o que uma maioria entendeu ser um elefante branco, que a dita casa permanecesse abandonada por bastante mais tempo. Mas esta semana foi anunciada a boa notícia de que foi comprada por Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, para servir de sede para a sua fundação, reconhecendo o valor patrimonial de um edifício de Souto Moura, a sua localização vantajosa e as potencialidades que apresenta enquanto espaço cultural. 

Fonte:

http://www.dn.pt/artes/interior/marido-de-isabel-dos-santos-compra-casa-de-manoel-de-oliveira-para-sede-de-fundacao-4986286.html

http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2016-01-19-Marido-de-Isabel-dos-Santos-compra-casa-Manoel-de-Oliveira

20/01/2016

As Ruínas da EFANOR


Ainda hoje se debate se o estado de abandono avançado que resultou na completa degradação de uma das mais interessantes partes do imenso complexo da EFANOR de Matosinhos e do seu magnífico motor e parte de uma turbina a vapor é um crime contra o património industrial da região. Um crime algo irónico, pois representa apenas uma pequena parte de um complexo quase inteiramente demolido para dar lugar a outros empreendimentos que não pareceu ferir as susceptibilidades dos que defendem a protecção de vestígios industriais emblemáticos ou com décadas de existência, mas que permitiu de certa maneira a “preservação” de um bem digno de apreciação.

A história da EFANOR (Empresa Fabril do Norte), bem conhecida, remonta a 1904 através da visão do empresário Delfim Pereira da Costa, que a inaugurou em 1907 para a produção de carrinhos de algodão para coser e bordar – pelo que ficou também conhecida pela Fábrica dos Carrinhos da Senhora da Hora. O seu trabalho foi posteriormente seguido pelo empreendedor Manuel Pinto de Azevedo (que está injustamente relacionado com outros imóveis degradados já descritos neste blogue – sobretudo na Rua do Bonfim), que adquire a fábrica em 1922. Representativa de uma era de importante desenvolvimento industrial do nosso país, a EFANOR chegou a ter mais de 3000 trabalhadores e foi pioneira tanto em maquinaria como no apoio social concedido aos operários, que além de um bairro com dormitórios incluía uma creche para os seus filhos e até um complexo desportivo, jamais descurando ainda a garantia de cuidados médicos e amplos refeitórios para alimentar os colaboradores.


É certo que os seus trabalhadores passaram por tempos muitos difíceis ao longo dos tempos, mas a machadada final ocorreu nos anos 90 do século XX, quando o complexo fabril encerrou de vez na transição para uma era em que a China ganhou maior protagonismo na produção têxtil e a União Europeia abriu os seus mercados para escoamento dos seus produtos com as garantias fiscais com as quais indústrias têxteis dos estados-membros como o nosso nunca (ou dificilmente) poderiam competir.

Histórias à parte, o Colégio EFANOR, que é propriedade da SONAE, ainda ocupa o edifício administrativo da antiga fábrica, mas o pequeno edifício da tintura, com a sua visível chaminé e rasgado por amplos janelões, mais não é do que uma trágica ruína que se destaca na paisagem. Aparentemente, o contrato com a Fundação de Serralves para a instalação de um pólo no local ainda não permitiu que (o que resta d)o edifício e a sua maquinaria sejam poupados à acção do tempo.




Recentemente, a Câmara Municipal de Matosinhos demonstrou todo o interesse em dar um passo em frente para auxiliar e agilizar o seu processo de reabilitação enquanto intervém na requalificação do espaço envolvente.

Ideias para Salvar os Centros Comerciais Fantasma (de Braga)

Trata-se de uma iniciativa que a cidade do Porto deveria importar para resgatar os seus próprios centros comerciais fantasma de 1ª geração (como o Stop, Cedofeita e o Brasília, entre outros) para que não se desertifiquem totalmente: A Associação Comercial de Braga avançou com o projecto "Activar Braga" para lançar a cabo um estudo sério multidisciplinar para perceber o potencial dos antigos shoppings das décadas de 70/80 (e até de 90) e recuperá-los, já que muitos se encontram abandonados e parcialmente devolutos.

A nova estratégia de intervenção só será conhecida após este estudo de diagnóstico, que dependerá de uma candidatura da associação apresentada ao Sistema de Apoio das Acções Colectivas (SIAC) do Programa Portugal 2020. Não é a primeira vez que Associação Comercial de Braga manifesta o seu interesse em desenvolver novas ideias para revitalizar estes espaços, pois em 2011 já apresentava à Câmara Municipal de Braga um plano que passava por centros de incubação de empresas, mas que não se chegou a concretizar.

É certo que pelo seu lado, o poder local já terá recebido projectos interessantes para requalificar alguns destes antigos centros comerciais através do recente Concurso de Ideias para a Regeneração Urbana da Avenida da Liberdade que passarão a atribuição de novas funções destes espaços através da sua reabilitação. Enquanto isso, ansiamos para que no Porto se verifique uma iniciativa similar e não se deixe morrer o que futuramente se pode traduzir no reaproveitamento de espaços sobreviventes que, em relação ao seu destino como eternas galerias comerciais, representam ainda uma incógnita.

Abandonados entre a Avenida de Camilo e a Rua do Bonfim

Durante anos esta imagem de um prédio influenciado pelas linhas da Art Deco de entradas completamente entaipadas e de um prédio característico com vários painéis de azulejos incomodava com passava pela Avenida de Camilo. Houve até quem julgasse que se tratasse de um único imóvel, mas um olhar mais atento comprovará que são ambos distintos.

Actualmente, o prédio mais devoluto (que na realidade apresenta as suas traseiras para a Avenida de Camilo enquanto a frente principal se situa na Rua do Bonfim) está a ser intervencionado e a sua recuperação irá mudar por completo o cenário com que durante muitos anos nos deparamos. Data da segunda metade do século XIX, mas a sua característica mais notável diz respeito ao espaço onde funcionou a Antiga Tabacaria Veludo – nome pelo qual ficou mais conhecido o prédio – que ocupou os Nºs 84 e 86 da Rua do Bonfim a partir de 1932 segundo vontade da proprietária Maria do Carmo Resende da Silva, que intervenciona neste imóvel de modo a conter uma pequena galeria comercial que ainda hoje lá se encontra. Esperamos que no decorrer das obras de reabilitação que ao menos não sejam removidas as históricas letras da “Antiga Tabacaria Veludo”, relíquia gráfica dos anos 30 do séc. XX.

Já o prédio que se encontra ao lado, que também faz contacto com a Rua do Bonfim mas cuja fachada mais expressiva se encontra virada para a Avenida de Camilo (Nºs 344 – 346), não vai receber uma intervenção tão depressa. Com linhas muito rígidas, mas menos agravadas pelos relevos de flores em betão, foi construído segundo vontade do industrial Manuel Pinto de Azevedo, contando com o apoio financeiro de Carlos Manuel Mendonça de Azevedo Carvalho, com o propósito de arrendar os seus apartamentos. O prédio data de 1932 e o responsável pelo projecto foi precisamente Carlos Manuel Mendonça de Azevedo. Mais tarde, em 1935, o proprietário conta com o arquitecto Leandro de Morais para expandir o conjunto edificado para arrendamento e por sua vontade é erguido o prédio curvo que se situa no canto entre as Ruas do Bonfim e a Avenida de Camilo. Este, pelo menos, não se encontra vazio ou devoluto.

19/01/2016

Casa Nº541 da Rua de Santos Pousada

No ano em que este pequeno prédio para habitação foi erguido, em 1913, a Rua de Santos Pousada era designada por Rua de S. Jerónimo. E o proprietário responsável pela construção deste prédio foi Salvador Gonçalves Valentim, que contara com o apoio do mestre-de-obras José Maria de Barros, embora se presuma que o desenho seja do proprietário. Mais tarde Salvador Valentim torna-se arquitecto e passa a assinar projectos, sendo responsável por fazer várias alterações na sua casa ao longo dos anos seguintes.

A actividade de Salvador Gonçalves Valentim como arquitecto na cidade do Porto é conhecida e está bem referenciada devido ao seu projecto da magnífica Garagem que corresponde aos os Nºs 140 - 144 - 150 - 156 - 160 da Avenida de Camilo, com uma nítida influência Arte Nova severa da qual se destaca o curioso painel de azulejos no remate central da fachada. Mas como criativo, Salvador Gonçalves Valentim fez mais do projectar edíficios e, em 1929 ergue uma oficina de ourivesaria nesta mesma casa. 

Actualmente o pequeno prédio encontra-se à venda, mas apresenta um estado calamitoso, agravado pela ausência parcial de paineis de azulejos, portas e portadas de janelas degradadas e parte da fachada ocupada por vegetação.

As Obras do “Monumental” continuam…



As obras do antigo Café Monumental continuam… para ser devolvido à cidade do Porto como hotel. É certo e merecido que o anúncio da requalificação deste magnífico edifício situado na Avenida dos Aliados já deveria ter sido destacado há muito – ocorreu em 2014, quando o empresário Mário Ferreira deu a conhecer o seu interesse em adquirir este imóvel dos anos 30, que é um autêntico palacete, para posteriormente apresentar o seu projecto para reabilitá-lo e transformá-lo num hotel de 5 estrelas.

Trata-se de um investimento de 20 milhões de euros que lhe restituirá toda a dignidade. O fim das obras e a sua inauguração como “Hotel Monumental” estão previstos para o início de 2017. Esperamos que desta vez, a ocorrer a próxima visita do Papa ao Porto, um dos mais nobres edifícios da cidade não se encontre completo coberto por toldes para ocultar a sua vergonhosa degradação. Enquanto as obras prosseguem, acompanharemos a sua reabilitação com todo o interesse.

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