18/09/2014

Conjunto de Moradias Geminadas na Rua 5 de Outubro



Não é exemplo único, mas um entre os vários conjuntos de habitações com décadas de existência que se encontram vazios de proprietários e com as entradas entaipadas. Este excepcional conjunto de moradias é paradigmático do que poderia ser considerado emblemático e digno de ser classificado como Imóvel de Interesse Público na nossa cidade. Ignoramos o motivo pelo qual as moradias se encontram devolutas e sem residentes. Sabemos apenas que a Câmara Municipal do Porto não se absteve de salvaguardar uma parte valiosa dos painéis de azulejos que outrora percorreram os frisos da parte mais antiga do conjunto, azulejos esses de estilo Arte Nova e reconhecidos como provenientes da célebre Fábrica de Sacavém (um painel desses mesmos azulejos pode ser admirado no Banco de Materiais da Câmara).



Aplaudiremos sempre a iniciativa de salvaguardar tão preciosos elementos históricos como os nossos azulejos, mas permitir a completa degradação de moradias como estas é que não. Mais uma vez somos levados a crer que a vontade de desenvolver novos conceitos de habitação social não alberga casas antigas com possibilidade de integrar mas apenas e sobretudo blocos de apartamentos que formam os bairros de exclusão que estão comummente afastados do centro de uma cidade cada vez mais deserta (a reabilitação da Ilha de S. Vítor e o programa daí decorrente parece ser a única excepção à regra).

Independentemente de se tratar de um conjunto privado ou não, o poder local não deveria permitir que um conjunto de habitações que poderia ser lar de várias famílias chegasse a este deprimente estado. E reabilitá-las enobrecia esta área da Rua 5 de Outubro, já que o conjunto foi inteiramente uma obra de dedicação do seu primeiro proprietário, que pediu licença para as construir nos anos 20.


Foi em 1922 que José de Passos Mesquita pediu licença de construção das primeiras moradias geminadas (supomos que para arrendar) neste local, correspondentes aos números 527, 535, 543 e 551, rasgadas por elegantes janelas e com típicos gradeamentos que juntamente com os azulejos enalteceriam o conjunto. Será no ano a seguir que José de Passos Mesquita se dedica às obras de ampliação e modernização das mesmas, acrescento barracões e lugares de garagem nas traseiras das mesmas. Foi um projecto faseado. Em 1930 dá início à construção de mais quatro moradias geminadas, em tudo similares às primeiras, contando com um projecto assinado pelo arquitecto Inácio Pereira de Sá (provável responsável pelo projecto do primeiro conjunto de moradias dos anos 20), correspondendo aos números 559, 567, 575 e 583, que dispõem de frisos de azulejos diferentes (serão igualmente provenientes da Fábrica de Sacavém?). Só em 1933 é que estas habitações ganham lugares de garagem nas suas traseiras, facilmente acedidas através da Rua Moreira de Sá.

Desagrada-nos muito o estado devoluto e o desaproveitamento de todo o conjunto que já se perpetua há demasiados anos – faz-nos antever o pior em relação ao futuro destas moradias, como se fossem mais um pedaço de história pronto a ser devastado para dar lugar a outros empreendimentos contrários aos interesses de uma sociedade que protege e cuida do seu património.

10/09/2014

Moradia Nº4875 na Avenida da Boavista


O caso desta ampla moradia chama-nos particular atenção devido ao mistério que envolve a mesma, além de evidenciar uma rica história que envolve uma ilustre família do Porto.

Qual é o mistério que a envolve? Em primeiro lugar, não conseguimos identificar ou descobrir registos que apontam para a data exata da sua construção (muito provavelmente terá sido nos anos 20 do século XX). Em segundo lugar, ainda desconhecemos quem terá sido o seu arquitecto. Em terceiro – cientes de que a casa terá sido efectivamente ocupada por um médico, devido a inúmeras radiografias que nos anos 90 estavam espalhadas por algumas divisões da casa – ainda não comprovamos que o seu proprietário era mesmo o Prof. António de Sousa Pereira (1904 - 1986), conceituado professor de anatomia a partir de 1930, tendo chegado ao cargo de reitor na Universidade do Porto entre 1969 e 1974.


O que podemos determinar, pelas proporções e devido aos inúmeros elementos que a compõem, é que esta moradia apresenta muitas características da chamada típica “Casa Portuguesa” que diz muito respeito à obra de Raul Lino (1879 – 1974); longe de apontarmos a sua autoria – que evidentemente não podemos comprovar – é mais que justo referir a influência do seu trabalho nesta moradia (existência de alpendre, paredes caiadas, cobertura de telha sanqueada com as curvas da arquitectura portuguesa tradicional…). Inicialmente, o terreno onde a casa se ergue pertenceu a Johann Wilhelm Burmester, responsável por erguer o muro em seu redor, pelo que será de concluir que a moradia foi construída por sua vontade para nela residir.

Johann Wilhelm Burmester era filho do rico negociante Gustav Adolf Burmester (1852-1940), conhecido residente na Casa Burmester, mais conhecida por Quinta do Campo Alegre, que actualmente pertence à Universidade do Porto.


09/09/2014

Moradia na Rua de Círiaco Cardoso


Nunca tivemos a menor dúvida que uma descoberta fortuita pode levar ao reconhecimento, classificação e proteção do nosso património para júbilo dos cidadãos que se interessam por esse mesmo tema (já de si tão indignados ou incapazes de compreender o estado de desprezo a que foram votados tantos monumentos belos numa cidade tão rica em história). Felizmente, a moradia Nº31 da Rua de Círiaco Cardoso parece ser um desses casos: Apesar do seu estado de degradação e abandono, esta tornou-se notória quando foi feita a revelação em Março de 2014 de que terá sido desenhada pelo arquitecto Raul Lino (1879 - 1974), ilustre cultor da "Casa Portuguesa". 

O mérito desta descoberta recaí sobre a investigadora Carla Garrido de Oliveira, arquitecta e professora de História de Arquitectura Portuguesa na Universidade do Porto. Não pretendemos esmiuçar muito mais os detalhes ou os contornos da investigação que levou a esta fortuita descoberta (a qual, esperamos, pode levar à classificação ou exigência de preservação deste imóvel). Evidenciaremos antes que se foi identificada uma obra de Raul Lino na cidade do Porto, temos toda a legitimidade para lançar a suspeita de que muito provavelmente não é a única. 

E por isso lançamos a questão:

Podem várias das moradias mais notáveis abandonadas do Porto das primeiras décadas do século XX ter sido projectadas por arquitectos portugueses famosos cuja história foi esquecida ou nos passou despercebida até à actualidade? 




Esta moradia encontra-se à venda e é verdadeiramente única. Apesar das alterações que sofreu ao longo dos anos, não deixa de ser uma casa portadora dos elementos que facilmente atribuímos à obra de Raul Lino, que podemos descrever como "neotradicional", com paredes de pedra (granito, neste caso) caiado, vãos emoldurados, utilização de alpendres e no uso da cobertura de telha sanqueada. 

O seu proprietário original era o médico João de Almeida e a assinatura do projecto da casa foi assinada pelo arquitecto José do Santos, uma curiosa lacuna (entre muitas nos projectos e licenças de obra antigas) que nos leva a pensar na existência de outros possíveis exemplos do muito que ainda há por descobrir e no mistério das obras notáveis de autores anónimos, que podem ter sido mais famosos do que em príncipio julgamos.

03/09/2014

Casa do Antigo Restaurante Dom Manuel



O Nº384 da Avenida de Montevideu, em Nevogilde, já teve melhores dias. Grandiosa casa, tipo palacete, foi erguida no início do século XX e é atribuída ao arquitecto Miguel Ventura Terra (1866 – 1919). O seu proprietário foi José Rosas Júnior, que ao longo dos anos foi responsável por variadas alterações, incluindo a construção de um lugar de garagem.

Apesar da simplicidade da ampla construção, a presença de um torreão que se evidencia na fachada principal dá-lhe um efeito compositivo que realçado pelos frisos de azulejos de estilo Arte Nova provavelmente fabricados na Fábrica de Cerâmica das Devesas.

Esta casa acomodou durante anos o célebre Restaurante Dom Manoel, que chegou a receber empresários, políticos e pessoas ilustres. Fechou durante a primeira década do século XXI e desde então não voltou a encontrar novo proprietário. Encontra-se à venda, pronto a ser resgatado.

01/09/2014

Palacete Nº75 Praça da República


O Palacete Nº75 da Praça da República que faz esquina com a Rua de Álvares Cabral foi conhecido durante muitos anos por ter albergado o Instituto Francês, que fechou em 2004. Hoje é mais um monumento vazio, que acabou devorado por um incêndio ocorrido há poucos anos. Felizmente mantém a sua fachada nobre intacta, digna de apreciação dos que são a favor da defesa do património, de curiosos ou até de turistas interessados na nossa arquitectura histórica.

Ao contrário do que muitos pensam, este não é o palacete original da Quinta de Santo Ovídio que pertenceu ao Conde de Resende e da qual fazia parte uma ampla extensão de terrenos onde hoje se encontram as casas ilustres da Rua Álvares Cabral; essa casa foi demolida por altura de abertura da rua e as suas características formais eram do século XVIII, certamente carregada de elementos barrocos. Este palacete é mais recente e foi construído provavelmente com reaproveitamentos da antiga casa da quinta aquando da altura da sua demolição entre 1895 e 1897 – embora se propague a teoria que foi a parte que sobreviveu da mesma, que era comprida, composta por várias alas de dimensão considerável. Teorias à parte, que não podemos comprovar, reconhecemos inequivocamente na sua fachada principal inúmeros elementos dos finais do século XIX, sendo certas as intervenções já do início do século XX.



Não temos como comprovar que o Conde de Resende, sogro de Eça de Queiroz, terá habitado alguns anos neste palacete, quando o mais certo é a sua compra por privados após ter sido sido rasgada a Rua de Álvares Cabral. Nos anos 20 já estava em posse de Maria Celestina Alves Machado, proprietária ainda de várias casas que arrendava na Rua de Álvares Cabral, tendo feito várias obras de remodelação no palacete. Actualmente não está habitado e encontra-se para venda.

Torreões da Quinta dos Castelos


Perto do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Coimbrões, em Vila Nova de Gaia, existe um terreno desaproveitado com um conjunto de monumentos misteriosos que chamam a atenção devido ao ar de mistério que transmitem. Além de uma torre no centro do terreno coberto de mato, existe um pequeno conjunto de torreões que lembra a entrada magnânima de um castelo, virada para a linha de comboio. Na verdade trata-se do que sobreviveu de uma propriedade conhecida na zona por Quinta dos Castelos e, como esta entrada composta de pórtico é composta de três torrões, ou por ser o terceiro elemento evidenciado como "castelo" da quinta, a propriedade também é conhecida por Quinta dos Três Castelos.

Esta construção invulgar nasceu da visão do proprietário Bernardo Soares de Almeida que em 1907 imaginou erguer um muro em betão coberto de ameias segundo o gosto revivalista da própria casa já demolida (no lugar onde hoje está instalado o quartel dos bombeiros e uma escola). 


Custa-nos compreender porque o terreno onde se situa esta curiosa construção nunca foi reaproveitado devidamente ou porque estes torreões de betão se encontram em estado de abandono. Estamos certos que no passado albergou um jardim luxuriante e bem tratado, do qual persistem diversos elementos como uma torre e uma pequena gruta artificial que conteria um lago, ambos vistos através de um elegante portão com gradeamento já enferrujado; hoje é apenas um local de meter medo, inspirando todo o género de mitos urbanos bem conhecidos entre a população local que encara este conjunto de monumentos sombrios apenas com desagrado.

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